Henri desfaz-se da latinha de cerveja num lance suave com o pé que a arremessa para o outro lado da calçada sem ruído. Segue de volta à porta do prédio onde Sofia estava e limpa os dois pés no carpete da entrada. Aperta o botão que alertaria o porteiro. A porta se abre automaticamente.
Henri sobe as escadas de novo. Detem-se diante do apartamento. Gira a maçaneta. Nenhuma tranca ou impedimento.
sábado, 24 de outubro de 2009
(per)versos
Henri subiu as escadas forte e silencioso, subiu até o sétimo andar. Só havia diante de si agora dois apartamentos. Ele detém-se diante do 701, ofega, prende, suspira. Desce as escadas mais rápido e baixo que subiu, faz que vai acender um cigarro, mas esquece.
Sofia, ainda sentada, olha para o pau dentro da calça, entre as pernas meio abertas, meio cruzadas, duro. O rosto do homem parece impassível. Ele olha apático para Sofia. Não insinua ou age com desdém. Sofia abre a calça, põe o pau dele na boca e chupa.
- Tem gosto de água sanitária, essa merda.
O homem mantém-se blasé, de pau duro. Agora, ele olha Sofia nos olhos. Parece doce, vira-lhe de quatro e enterra tudo de uma vez sem saliva no buraco de cima. Sofia grita.
- I like violence a little bit – ela diz, em inglês.
Henri ouve alguma coisa lá debaixo. Arrasta uma latinha de cerveja com o pé, suja o sapato.
Sofia, ainda sentada, olha para o pau dentro da calça, entre as pernas meio abertas, meio cruzadas, duro. O rosto do homem parece impassível. Ele olha apático para Sofia. Não insinua ou age com desdém. Sofia abre a calça, põe o pau dele na boca e chupa.
- Tem gosto de água sanitária, essa merda.
O homem mantém-se blasé, de pau duro. Agora, ele olha Sofia nos olhos. Parece doce, vira-lhe de quatro e enterra tudo de uma vez sem saliva no buraco de cima. Sofia grita.
- I like violence a little bit – ela diz, em inglês.
Henri ouve alguma coisa lá debaixo. Arrasta uma latinha de cerveja com o pé, suja o sapato.
domingo, 15 de março de 2009
A Grande Noite
O motorista abriu a porta do carro, e Sofia saiu. Estava vestida com um decote discreto e tinha mais maquiagem no rosto do que costuma. Henri distraiu-se, e o homem de luvas abriu sua porta também, e fechou, despediu-se e saiu sem ser escutado.
No quarteirão, havia um café para onde Henri seguia. Um homem de terno abriu a porta pela qual Sofia entrou. O recepcionista e o maître, que conversavam sobre um balcão, viraram-se em silencioso cumprimento.
Embora luxuoso, o prédio era muito antigo – não havia elevador. Sofia subiu as escadas sucedida do mordomo da casa e, em breve, chegou ao terceiro andar. Boa tarde, senhora – ele disse. O anfitrião deixou-a diante de uma porta que estava trancada à chave, e Sofia viu uma segunda porta, esta aberta.
Caminhou em direção ao apartamento, via as costas de um grande sofá. Agora, à sua direita, podia ver uma mão, uma mão jovem e um copo de whisky com gelo. Viu uma garrafa de vodka ao lado da garrafa de whisky e um homem sentado, as pernas meio abertas, meio cruzadas. Sentou num sofá menor vazio em frente ao do homem.
No quarteirão, havia um café para onde Henri seguia. Um homem de terno abriu a porta pela qual Sofia entrou. O recepcionista e o maître, que conversavam sobre um balcão, viraram-se em silencioso cumprimento.
Embora luxuoso, o prédio era muito antigo – não havia elevador. Sofia subiu as escadas sucedida do mordomo da casa e, em breve, chegou ao terceiro andar. Boa tarde, senhora – ele disse. O anfitrião deixou-a diante de uma porta que estava trancada à chave, e Sofia viu uma segunda porta, esta aberta.
Caminhou em direção ao apartamento, via as costas de um grande sofá. Agora, à sua direita, podia ver uma mão, uma mão jovem e um copo de whisky com gelo. Viu uma garrafa de vodka ao lado da garrafa de whisky e um homem sentado, as pernas meio abertas, meio cruzadas. Sentou num sofá menor vazio em frente ao do homem.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
23. Custo X Benefício
Sofia e Henri estão dentro do táxi, sentados no banco de trás como passageiros. O terço balança no retrovisor. Os holandeses são católicos?
Sofia introspecta:
Esse holandês católico tem esposa?
Será que ela é puta? ... Não... Foi ela que colocou o terço aí. Só pode ter sido.
Henri posiciona as mãos sobre as de Sofia... Acaricia seus dedos devagar.
Sofia, de perfil, continua o raciocínio:
Eis que a sociedade do consumo mostra a carta na manga: no Distrito da Luz Vermelha, são as mulheres que estão na vitrine.
E é caro, viu? Não é como no Brasil, não.
Prostituta no Rio de Janeiro é camelô: transita sorrateira, com sorte, pela escuridão da Zona Sul de postes de lâmpadas queimadas. Cada uma tem seu posto. Vira e mexe dá briga.
Fosse só o constrangimento passava. Mas prostituta de rua é ambulante porque tem que fugir da PM – a mesma polícia que mendiga uma foda mal dada.
PM no Brasil ganha pouco.
Se, ao invés de voltar-se para dentro, olhasse em direção à janela lateral, Sofia veria, na rua, policiais holandeses devidamente becados.
Henri olha, pela janela, vitrines com belas mulheres expostas. Ele pensa:
That’s what i call good meat!
Sofia o cutuca. Tira as mãos de perto dele, coloca-as no seu próprio colo. Ela está de vestido. É possível ver uma porção generosa de suas pernas.
Henri olha para as pernas de Sofia e para o lado de fora do carro. Compara as pernas de sua mulher com as mulheres que estão na vitrine e as que passam pela rua. Ele suspira devagar... E se pergunta:
De quanto na vida eu me privo pelo conforto?
Sofia introspecta:
Esse holandês católico tem esposa?
Será que ela é puta? ... Não... Foi ela que colocou o terço aí. Só pode ter sido.
Henri posiciona as mãos sobre as de Sofia... Acaricia seus dedos devagar.
Sofia, de perfil, continua o raciocínio:
Eis que a sociedade do consumo mostra a carta na manga: no Distrito da Luz Vermelha, são as mulheres que estão na vitrine.
E é caro, viu? Não é como no Brasil, não.
Prostituta no Rio de Janeiro é camelô: transita sorrateira, com sorte, pela escuridão da Zona Sul de postes de lâmpadas queimadas. Cada uma tem seu posto. Vira e mexe dá briga.
Fosse só o constrangimento passava. Mas prostituta de rua é ambulante porque tem que fugir da PM – a mesma polícia que mendiga uma foda mal dada.
PM no Brasil ganha pouco.
Se, ao invés de voltar-se para dentro, olhasse em direção à janela lateral, Sofia veria, na rua, policiais holandeses devidamente becados.
Henri olha, pela janela, vitrines com belas mulheres expostas. Ele pensa:
That’s what i call good meat!
Sofia o cutuca. Tira as mãos de perto dele, coloca-as no seu próprio colo. Ela está de vestido. É possível ver uma porção generosa de suas pernas.
Henri olha para as pernas de Sofia e para o lado de fora do carro. Compara as pernas de sua mulher com as mulheres que estão na vitrine e as que passam pela rua. Ele suspira devagar... E se pergunta:
De quanto na vida eu me privo pelo conforto?
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
22. O Benefício da Dúvida - Parte 1
O casal está no apartamento de Henri.
- Vamos, Sofia! Helena deve estar ocupada em arrecadar um qualquer. Precisa ajudar os pobres dela.
Henri está sentado na cama. Tem boa postura, os olhos perdidos... Ele pensa:
O que essa putinha...O que essa mulher tanto olha na Sofia?
Essa mulher...essa mulher tem um jeito de olhar os homens e a maioria das mulheres que quase me incomoda.
Henri fala, voltado-se à Sofia, que se arruma no espelho sobre o console:
- Vamos, Sofia! Vamos logo...
Do lado de fora do prédio, um táxi passa. Henri faz sinal. O táxi pára.
Henri abre a porta traseira do carro para Sofia e entra em seguida.
Carros riscam o asfalto ao lado do táxi parado. Pode-se ouvir o grande barulho que alguns fazem ao passar. O motorista liga o carro. Henri vê a mão dele ao volante e o retrovisor. Há um terço católico no retrovisor.
- Vamos, Sofia! Helena deve estar ocupada em arrecadar um qualquer. Precisa ajudar os pobres dela.
Henri está sentado na cama. Tem boa postura, os olhos perdidos... Ele pensa:
O que essa putinha...O que essa mulher tanto olha na Sofia?
Essa mulher...essa mulher tem um jeito de olhar os homens e a maioria das mulheres que quase me incomoda.
Henri fala, voltado-se à Sofia, que se arruma no espelho sobre o console:
- Vamos, Sofia! Vamos logo...
Do lado de fora do prédio, um táxi passa. Henri faz sinal. O táxi pára.
Henri abre a porta traseira do carro para Sofia e entra em seguida.
Carros riscam o asfalto ao lado do táxi parado. Pode-se ouvir o grande barulho que alguns fazem ao passar. O motorista liga o carro. Henri vê a mão dele ao volante e o retrovisor. Há um terço católico no retrovisor.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
21. A Primeira Vez (preparativos)
Na suíte, eram três horas da manhã. Sofia acorda, e fala para si deitada:
Ao olhar pro lado o que eu podia ver era uma cama. Onde estará Helena? Eu acordei procurando por ela...
Sofia passeia pelo quarto em silêncio, explorando bem todo o espaço:
Estranho. Helena faz a cama sempre tão bem feita antes de sair. Deve ser o...
TRIMMMM. TRIMMMM...
Sofia atende ao telefone.
Põe o fone no gancho, senta na cama de Helena:
Era o telefone. Meu primeiro cliente.
Ela tem o aparelho aos ouvidos. Henri é quem lhe fala (flashback):
- X será o seu primeiro cliente, Sofia. Cuidei para que se tratasse de rapaz educado. Ele é até bonito. Precisa de seus cuidados porque anda um bocado carente. Herdeiro, dono de uma empresa citadina de médio porte, disse no trabalho que tinha consulta médica.
Sofia apenas faz que sim com a cabeça. E desliga o telefone.
Ao olhar pro lado o que eu podia ver era uma cama. Onde estará Helena? Eu acordei procurando por ela...
Sofia passeia pelo quarto em silêncio, explorando bem todo o espaço:
Estranho. Helena faz a cama sempre tão bem feita antes de sair. Deve ser o...
TRIMMMM. TRIMMMM...
Sofia atende ao telefone.
Põe o fone no gancho, senta na cama de Helena:
Era o telefone. Meu primeiro cliente.
Ela tem o aparelho aos ouvidos. Henri é quem lhe fala (flashback):
- X será o seu primeiro cliente, Sofia. Cuidei para que se tratasse de rapaz educado. Ele é até bonito. Precisa de seus cuidados porque anda um bocado carente. Herdeiro, dono de uma empresa citadina de médio porte, disse no trabalho que tinha consulta médica.
Sofia apenas faz que sim com a cabeça. E desliga o telefone.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
20. Helena - Parte 2
Helena era a típica heroína solitária chicana. Quase anônima como a grande maioria. Nunca soubemos o seu nome verdadeiro; nem eu nem o mais poderoso de seus clientes. Participara de inúmeras revoluções, todas elas no continente americano, sempre sob a proteção do pseudônimo.
Cansada de sangue e mais sangue, ela chegava à Amsterdã para oferecer o seu corpo vivo ao mortal que fosse. Precisava arrecadar junto aos senhores de bem a quantia necessária à compra da revolução. Em troca, oferecia-lhes o prazer que seus móveis, imóveis, esposas e estilos de vida não conseguiam.
Helena não negava o mundo à sua volta, mas simplesmente o combatia. A Revolução ela dizia que não acabou. O que aconteceu à luta de Helena é o que a trouxe a Amsterdã. “A revolução mudou” – ela sustenta – “a única Revolução possível é a das idéias”.
Cansada de sangue e mais sangue, ela chegava à Amsterdã para oferecer o seu corpo vivo ao mortal que fosse. Precisava arrecadar junto aos senhores de bem a quantia necessária à compra da revolução. Em troca, oferecia-lhes o prazer que seus móveis, imóveis, esposas e estilos de vida não conseguiam.
Helena não negava o mundo à sua volta, mas simplesmente o combatia. A Revolução ela dizia que não acabou. O que aconteceu à luta de Helena é o que a trouxe a Amsterdã. “A revolução mudou” – ela sustenta – “a única Revolução possível é a das idéias”.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
19. Esquema Amsterdã
- Helena de um lado, eu do outro. Era assim que nos organizávamos. Ela tinha o seu ramal e eu o meu. Um console espelhado adjacente a cada cama... Também achei meio brega. O telefone tocava. Era o táxi lá embaixo esperando por...Helena...quase sempre. Eu ainda não tinha feito a minha clientela. E Henri também é um lerdo. Bem. Era assim que procediam os clientes agenciados.
E era Henri
que os agenciava
a grande maioria
deles
The business man, como manda o figurino: Henri é um ator perfeito. Um democrático liberal de direita que limpa a própria casa. Ele pensa que assim ele consegue convencer todo mundo; e ele consegue. Taí. É por isso que esse babaca está aqui nos agenciando. Clientes agenciados, clientela também. A gente depende dele, babe! É isso.
E era Henri
que os agenciava
a grande maioria
deles
The business man, como manda o figurino: Henri é um ator perfeito. Um democrático liberal de direita que limpa a própria casa. Ele pensa que assim ele consegue convencer todo mundo; e ele consegue. Taí. É por isso que esse babaca está aqui nos agenciando. Clientes agenciados, clientela também. A gente depende dele, babe! É isso.
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
18. Omitir não é Mentir
Sofia está calada:
Eu ouço tudo isso em paz. Posso até dizer que me excitaria se tão cansada eu não estivesse. Queria saber... Precisava entender aonde Henri queria chegar. Louros? Criminosos? Loiros criminosos comendo-lhe o cu?
E Henri continua (ou foi só nisto que Sofia prestou atenção):
- É isso que eu vou ser, Sofia! Eu vou ser uma prostituta...
Sofia o ouve junto à parede com as mãos espalmadas. Talvez, quisesse que Henri a comesse, que a comesse com força...que a comesse com força como se ela fosse um presidiário.
Henri fala e gesticula sem que Sofia possa escutar a sua voz. Aos poucos, a imagem que ela tem do homem se torna mais e mais desfocada. O semblante de Henri é sugado para o centro do quadro como um redemoinho, até que some e dá lugar a um todo branco e luminoso.
Sofia continua com as palmas das mãos junto à parede. Deste ângulo, podemos ver apenas um lado dela: seus braços, o pescoço. Ela tem o rosto todo virado para o lado oposto, também junto à parede. Respira devagar:
Helena me pegou pelos seios, pelas costas. Tocou na minha buceta com um de seus dedos, descendo para dentro de mim, depois saía; depois o outro. Beijava-me com a língua por detrás da minha. Ela era minha! Hoje e amanhã também de manhã no seu dia seguinte
No seu dia
seguinte
Eu ouço tudo isso em paz. Posso até dizer que me excitaria se tão cansada eu não estivesse. Queria saber... Precisava entender aonde Henri queria chegar. Louros? Criminosos? Loiros criminosos comendo-lhe o cu?
E Henri continua (ou foi só nisto que Sofia prestou atenção):
- É isso que eu vou ser, Sofia! Eu vou ser uma prostituta...
Sofia o ouve junto à parede com as mãos espalmadas. Talvez, quisesse que Henri a comesse, que a comesse com força...que a comesse com força como se ela fosse um presidiário.
Henri fala e gesticula sem que Sofia possa escutar a sua voz. Aos poucos, a imagem que ela tem do homem se torna mais e mais desfocada. O semblante de Henri é sugado para o centro do quadro como um redemoinho, até que some e dá lugar a um todo branco e luminoso.
Sofia continua com as palmas das mãos junto à parede. Deste ângulo, podemos ver apenas um lado dela: seus braços, o pescoço. Ela tem o rosto todo virado para o lado oposto, também junto à parede. Respira devagar:
Helena me pegou pelos seios, pelas costas. Tocou na minha buceta com um de seus dedos, descendo para dentro de mim, depois saía; depois o outro. Beijava-me com a língua por detrás da minha. Ela era minha! Hoje e amanhã também de manhã no seu dia seguinte
No seu dia
seguinte
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
17. No apartamento de Henri
São 21h17. Henri dá costas ao lustre alto e cor de nada. É dele o primeiro plano.
- Sofia, uma prostituta: é isso que vou ser. Ora, mas você também não o é? Então não me negue. Pouparei-a dos detalhes. Que lhe digo é que me interessam os piores crimes, os piores criminosos. E deles eu quero cuidar.
Henri caminha leve e adiante. Ele diz:
- É para eles que eu vou olhar quando ninguém mais o fizer. Não preciso dizer que prisão nunca foi e nunca será solução para os delírios de um psicótico. Nada muda nada e ninguém a não ser uma possibilidade melhor.
Eu vou dar-lhes...eu vou dar-lhes o meu suor. E ouvirei seus mais infinitos segredos. E, quando então, desbaratinados em enfim liberdade, derem-me as costas, deles já terei colhido os louros e neles depositado o meu esperma.
- Sofia, uma prostituta: é isso que vou ser. Ora, mas você também não o é? Então não me negue. Pouparei-a dos detalhes. Que lhe digo é que me interessam os piores crimes, os piores criminosos. E deles eu quero cuidar.
Henri caminha leve e adiante. Ele diz:
- É para eles que eu vou olhar quando ninguém mais o fizer. Não preciso dizer que prisão nunca foi e nunca será solução para os delírios de um psicótico. Nada muda nada e ninguém a não ser uma possibilidade melhor.
Eu vou dar-lhes...eu vou dar-lhes o meu suor. E ouvirei seus mais infinitos segredos. E, quando então, desbaratinados em enfim liberdade, derem-me as costas, deles já terei colhido os louros e neles depositado o meu esperma.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
16. Tentativa e Erro
- Sofia, você não vai acreditar, mas eu tive um sonho erótico contigo esta noite.
- Haha. Mentira!
- Eu disse...
- Como foi?
- Ah. Não conto.
- Não conta por quê?
- Porque quero que você descubra.
- E por onde eu começo?
- Sugiro método de tentativa e erro.
- Haha. Mentira!
- Eu disse...
- Como foi?
- Ah. Não conto.
- Não conta por quê?
- Porque quero que você descubra.
- E por onde eu começo?
- Sugiro método de tentativa e erro.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
15. Helena

Fazia duas horas desde a saída de Henri. Sozinha, tratei de avaliar melhor a locação, o que não me custou mais que alguns minutos. O interfone tocou. Alguém, àquela hora, conseguiu a proeza de achar o 914 em meio a outros 1.315 quadradinhos. Era a minha companheira de quarto, que voltava de Milão. That’s all about egos, ela havia justificado o destino, de pronto, pelo celular e em inglês mesmo.
- Como você deve saber, me chamo Helena.
- Eu não costumo me chamar! Haha. Mas que Seja. Chamarei você assim mesmo. Que nome bonito, Helena. Muito prazer.
Ela sorriu quase debochada movendo o nariz em direção ao queixo. Por costume, procurei pelos olhos da mulher com quem passaria a próxima temporada, se tudo desse certo, e Helena parecia realmente não estar interessada em tal tipo de intimidade.
Pois bem. – eu pensei – Já está tarde mesmo. Amanhã nós nos falamos.
Ela deixou a mala, preta, mas de fino gosto, entreaberta ao lado da cama. De lá, tirou apenas uma camiseta, uma bermuda de dormir e a toalha com a qual tomaria banho.
Virou-se pra mim e disse:
- Então é você que eu vou aturar nos próximos três meses? Bonitinha. Veio à Amsterdã pela grana com essa carinha de pobre menina rica? Convenhamos: não foi por isso, foi? - ela riu doce e forte. Os olhos de Helena eram águia com a boca na presa.
Ao sair da suíte, secou, com o pano branco que eu deixo atrás da porta, todo o chão dignamente. Dobrava-o em três ondinhas e secava o piso: um lado do pano e depois o outro. Torceu-o dentro do box e passou uma água nele. Tornou a torcer. Dobrou-o apenas úmido e posicionou-o exato sob os pés de quem entraria depois.
Por fim, lavou as mãos na pia com o sabonete líquido de aloe vera que sobre o suporte de aço em forma de flor eu coloquei. E dormiu pesado até as nove da manhã.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
14. Amsterdã Parte 2 - (or Norway?)

- Seus olhos estão vermelhos, Sofia.
- São as luzes, bobinho – segurou-me pelo queixo – Olhe pra cima. O que você esperava?
- O que eu espero?
Estávamos no quarto de fundos 914 em um antigo prédio no distrito da Luz Vermelha, seu novo - e provisório - local de trabalho. Não era mesmo tão aconchegante quanto pensava. Eu estava hospedado num conjugado pequeno e muito limpo a vinte minutos de lá.
Fazia duas semanas desde a nossa chegada. Sofia, ao se aproximar da janela, comemorava a Lua cheia cortada ao meio cantando baixinho a única música que sabia em holandês.
- Sei cantá-la em inglês também, Henri. A Orquestra dos kaizers chega na língua dos lords a qualquer canto do mundo, não chega?
I see what I have created
And count the lives that have been wasted
What before was balanced
Has become unbalanced
But, time has been kind to my handiwork
- É provável que chegue, sim. Você poderia cantar outra música também, não acha? Há muito não a vejo com um brilho tão sincero nos olhos. Cante, Sofia. Cante. Fale ao mundo seja em que idioma for, sem, contudo, desviar os olhos da platéia. Diga a quem cabe as suas idéias; aos demais qualquer besteira.
I've laid it brick by brick
I've stood on the bow
And steered the ship straight
- A platéia quer lhe ver, Sofia. Ela quer ser vista também, e você bem sabe.
I've risen in the ranks
And broken some bones
But, my conscience is...
- Tá. Essa música é de uma banda norueguesa, não é não?
...clear.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
13. Amsterdã

Eu me lembro, como se fosse hoje, da vez que decidimos sair pelo mundo afora. Era início da noite, metade do dia. A Terra e todos os seus satélites giravam indiferentes; os outros planetas também. Plutão estava frio e calculista em seu esconderijo de astro. Mercúrio queimava por dentro: primeiro, corado, perto, bem perto do Sol. Éramos um casal de apaixonados.
Eu assentia que Sofia quisesse o Universo ao passo que ela me doutrinasse sobre o poder da sofisticação. Era inato. Relato que a jovem mulher nada dizia a respeito, mas levava à boca a piteira, incapaz de admitir que amarelassem quão formosas são as suas mãos de fada. Só assim é que ela permitia-se uma cigarrilha.
Nunca lhe faltou merecimento. Não fosse o meu desdém pelo assunto, eu arrancaria o misticismo destas solitárias páginas e lhes daria vida.
Sofia tinha lobos e lebres e lábias de outrem a palpitar-lhe as veias. Isso foi desde sempre. Agora, é tudo polução noturna. E nós uma história sobre dois jovens tentando ganhar a vida fácil. Luzes vermelhas. Longe das câmeras e dos antigos caminhos, nós éramos menininhos sobre as suas bicicletas. A vida, o príncipe do primeiro baile.
12. Cidade das Mulheres

Por causa do espelho na porta, a primeira visão que o convidado tem na residência do adorável anfitrião é a de si próprio. A primeira e a última. Lembro que as cantoneiras da entrada eram moldura para o espelho atrás de si e o conjunto um retrato de mim. Henri gritou forte e gentleman:
- Entra! – ele estava se vestindo no quarto e então tratei de avançar, fazer pose para o espelho e me ver sem moldura até que uma sombra chegasse devagar para me mordiscar da barra da camisa surrada à nuca. Imagino que Henri deva ter percebido o meu desconcerto antes que eu pudesse fingir que pensei em tudo. Mas foi discreto.
- Venha, Catarina. Vamos à Cidade das Mulheres de Fellini! Você quer vinho?
Então o quarto de Henri seria a cidade das mulheres de Fellini e eu uma delas. Aceitei o vinho e os bombons que me ofereceu. Acendi-lhe a paixão e o cigarro. Recusei o que me deu em troca. Assistimos ao filme cujos quadros eram fotografias; fotografias e espelhos. Eram mulheres desesperadas.
11. O Amigo
Liguei pra ele pela manhã e ninguém atendeu. Não me pergunte pelo por que do pronome. Quem mais poderia estar naquele apertado quarto-e-sala? Para haver passagem no corredor, Henri mantém a custo a porta do banheiro fechada. Valendo-se dessa necessidade, ele aproveitou e pôs um espelho no lado de fora. Ou seja: você toma banho, seca-se todinho às cegas. Só vê a si no final, depois de vestido e enxugado. Embora, se mora sozinho, é provável que Henri ande nu pela casa.
Voltei a telefoná-lo depois do almoço – do horário de almoço em verdade; nada comi o dia inteiro. Ele ofegou e, só então, respondeu curto, grosso e asmático:
“Alô?” “Ah... Sofia? Olá Sofia. Como vai?”
Foi o máximo de interrogação que obtive. Disse-me que certo amigo passaria algum tempo em sua casa por conta de um curso. O amigo, até então, não tinha nome. Henri acabava de chegar de uma corrida com o amigo, agora hóspede, e estava cansado demais para o meu programa. “Eu agradeço o convite” – qualquer que ele fosse, imaginei – “, mas fica para outro dia” – pontuou.
Voltei a telefoná-lo depois do almoço – do horário de almoço em verdade; nada comi o dia inteiro. Ele ofegou e, só então, respondeu curto, grosso e asmático:
“Alô?” “Ah... Sofia? Olá Sofia. Como vai?”
Foi o máximo de interrogação que obtive. Disse-me que certo amigo passaria algum tempo em sua casa por conta de um curso. O amigo, até então, não tinha nome. Henri acabava de chegar de uma corrida com o amigo, agora hóspede, e estava cansado demais para o meu programa. “Eu agradeço o convite” – qualquer que ele fosse, imaginei – “, mas fica para outro dia” – pontuou.
10. Encerre em mim
- Resistir-lhe é morrer em mim. É encerrar-me em mim, Henri: é encerrá-lo. Será que você não vê? Não respeita a minha paz? Sabe que a você sempre retorno. E, no entanto, faz pouco caso do pouco que lhe ofereço. Você quer sempre mais e melhor. Quer sempre o futuro. Quer, sobretudo, o que não tenho, Henri; o que não tenho. E ao procurar em mim o que não tenho, faz que eu o procure e que o tenha e seja.
Faço com que me deseje
Ele sorri
Faço com que me deseje
Ele sorri
9. Carta de Sofia a Henri
Sempre fui mais escrita que falada. E tu bem sabes, meu amor. Ao meu lado a tua segunda pessoa, a primeira dos meus olhos, é feita de refém. Lanço o lápis sobre o cartão, lanço mão de qualquer antigo encanto. Vou ao pretérito, já mais que perfeito, quando foras tu meu único desejo à procura. Encontro um ponto de interrogação. Vou à tua época, à tua alma tão erudita.
E quando o faço, me atormentas, Henri, de modo que às vezes me canso de ti. És tão profundo e exaustivo que apenas algumas horas, apenas alguns minutos de ti em mim são o suficiente. Pensei em dar-te um concerto de Chopin e até uma ópera de Wagner - algo que o fizesse perceber-me, perceber o que causas em meu corpo; que o fizesse ler o que sinto quando vejo as luzes de tuas páginas e confesso-te que me tenta e que me trai o torpe desejo de fechá-las.
E quando o faço, me atormentas, Henri, de modo que às vezes me canso de ti. És tão profundo e exaustivo que apenas algumas horas, apenas alguns minutos de ti em mim são o suficiente. Pensei em dar-te um concerto de Chopin e até uma ópera de Wagner - algo que o fizesse perceber-me, perceber o que causas em meu corpo; que o fizesse ler o que sinto quando vejo as luzes de tuas páginas e confesso-te que me tenta e que me trai o torpe desejo de fechá-las.
8. Angústia
Estávamos prestes a terminar. Ou Henri me deixaria enfim ou eu o faria abandonar-me. Cansei-me de suas misérias, de seu choro forte, de seu corpo frágil cada vez mais magro. Como podem idéias tão densas saírem dali, daquele humano tão suave e perecível? Toda vez que o encontro, torna-me novamente impossível deixá-lo, seja por extrema pena que me acomete, ou por profunda devoção ao que me causa. Henri constrói seus castelos com a pressa de quem tem os dias contados. Ando apavorada.
7. O Idealista
Mudei de idéia, Sofia. Não vou mais correr contra o tempo nem perdê-lo para adiar o juízo final. Outro dia você tornou a me perguntar, porque eu insisti que repetisse, o que era mais importante na vida. Confesso que quase me escapuliu um rebelde e péssimo título de livro; qualquer termo que fizesse menção ao imenso amor que lhe tenho. Preferi dizer-lhe que não responderia a um tipo de pergunta como essa. “Não agora pelo menos” – reiterei com surpreendente firmeza.
Agora digo, Sofia, como quem não quer dizer nada, quetalvezparamim, o que há de mais importante na vida sejam as idéias ou mesmo os ideais - Baudelaire diria à votre guise. Eu sempre preferi o masculino. Gosto daquela sua última idéia de ser pó de estrela mais que a da fábrica também. E é às idéias que eu mais dedico o escasso tempo que hoje me sobra.
Quando me toma a pergunta sobre o que deixarei para a posteridade, eu só consigo pensar em como torná-las – a pergunta e a posteridade – o meu próprio dia-a-dia. O meu dia-a-dia, Sofia...eu me pergunto como não interrompê-lo
como ser vela
e também leme
ser remo
e ser fermento
Agora digo, Sofia, como quem não quer dizer nada, quetalvezparamim, o que há de mais importante na vida sejam as idéias ou mesmo os ideais - Baudelaire diria à votre guise. Eu sempre preferi o masculino. Gosto daquela sua última idéia de ser pó de estrela mais que a da fábrica também. E é às idéias que eu mais dedico o escasso tempo que hoje me sobra.
Quando me toma a pergunta sobre o que deixarei para a posteridade, eu só consigo pensar em como torná-las – a pergunta e a posteridade – o meu próprio dia-a-dia. O meu dia-a-dia, Sofia...eu me pergunto como não interrompê-lo
como ser vela
e também leme
ser remo
e ser fermento
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